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E o que as empresas tem com isso?

A parte que cabe às empresas no latifundio da guerra contra o tráfico.



Portal Exame, Blog Esquerda, Direita e Centro, 23 de outubro de 2009

Por Malu Gaspar - 23/10/2009 - 18:05


Eu estava no jantar em que o secretário de segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, desabafou, dizendo que o governo federal não faz a sua parte no combate ao tráfico de drogas. O encontro, parte de um ciclo de debates sobre o futuro do estado conhecido como OsteRio, aconteceu na noite de segunda-feira, dia seguinte à derrubada de um helicóptero da PM por traficantes. Ironia das ironias, o helicóptero caiu sobre uma Vila Olímpica. Dois PMs morreram, num daqueles dias que os cariocas gostariam de poder esquecer. O episódio despertou a indignação que costuma seguir os surtos de violência na cidade, e dos mais indignados parecia ser o próprio secretário Beltrame.


Mas não foi só do governo federal que Beltrame cobrou providências. Depois de apresentar os resultados de sua política de pacificação de favelas em cinco localidades (Dona Marta, Batam, Cidade de Deus, Babilônia e Chapéu Mangueira), ele falou diretamente aos empresários. Havia vários deles na platéia. "Esses locais não são mais sitiados, não é mais preciso pedir autorização ao tráfico para entrar. Mas, para que a experiência dê certo, é preciso que os senhores levem seus negócios para lá. Montem hotéis, filiais de suas empresas, financiem pequenos empreendimentos, criem emprego. Senão, de nada vai adiantar", pediu o secretário carioca.


É claro que nem todo negócio faz sentido numa favela, mas o secretário não está delirando. A Light, concessionária de energia do Rio de Janeiro, já entrou num desses locais pacificados, no morro Dona Marta, regularizando todo o fornecimento de luz. É um caso inédito de comunidade sem gato, em que a empresa passou a faturar 15 mil reais mensais, contra os 600 reais de antes da formalização. A taxa de pagamento de contas na data do vencimento é de 70%, contra 40% no resto da cidade. Noutra comunidade, o Batam, a concessionária, a Cedae instalou cerca de 3 quilômetros de ligação de água. Aos poucos, esses locais e seus habitantes começam a ser incorporados ao mundo formal. Espera-se que, quanto mais o processo avance, mas difícil fique a retomada desses locais pelo tráfico, algo que os próprios moradores terão interesse em impedir. Algumas empresas têm mostrado que entendem a situação como uma valiosa oportunidade de negócios (leia matéria a respeito publicada em EXAME) e começam a se organizar.


Anteontem, no Rio, um outro movimento, liderado pela associação comercial, foi criado para incentivar a formalização dos negócios nas comunidades pobres. Entre as empresas que participam estão a NET, de TV a cabo, a indústria d cimento, além da própria Light e da Cedae. É apenas uma iniciativa, entre as tantas necessárias para ajudar a vencer a disputa contra o tráfico. A lista de tarefas é imensa, e inclui acabar com a corrupção nas polícias, melhorar o treinamento dos policiais, proteger as fronteiras da entrada de armas e urbanizar as favelas. Mas não dá para dizer que as empresas não tem nada a ver com isso.


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